Inteligência artificial e multilateralismo nos debates da IBA 2026 - Luís Gustavo Haddad y Mauricio de Carvalho Silveira Bueno (HRSA)

A conferência anual da International Bar Association (IBA), realizada em outubro, em Copenhague, reuniu profissionais de diversos países para discutir questões que já fazem parte da rotina dos escritórios de advocacia e outras cujos efeitos ainda são difíceis de dimensionar. Participamos do encontro representando a Red Legal Iberoamericana (RLI) e tivemos a oportunidade de acompanhar os debates e trocar experiências com colegas de outras jurisdições.
Nas discussões sobre inteligência artificial, chamou a atenção o contraste entre os benefícios que a tecnologia já oferece e as dúvidas sobre como incorporá-la aos modelos de funcionamento dos escritórios. O uso das ferramentas tem facilitado tarefas, aumentado a produtividade e aberto possibilidades que há poucos anos pareciam distantes da prática jurídica. Ainda não se sabe, porém, como essas mudanças vão repercutir exatamente na organização das equipes, na relação com os clientes e nos modelos de remuneração.
Por um lado, a tecnologia permite realizar determinadas tarefas com maior rapidez. Por outro lado, aumenta a percepção de valor sobre a orientação estratégica e a experiência acumulada. Destacam-se fatores de diferenciação baseados na compreensão mais profunda de contextos e necessidades específicas, que resultem em uma maior e melhor qualificação das perguntas e direcionamentos dados às ferramentas. Não existe, até o momento, um entendimento comum sobre como lidar com essas mudanças. As ferramentas evoluem rapidamente, enquanto os escritórios procuram refletir e discutir sobre como adaptar suas estruturas e práticas profissionais.
No campo político, as discussões abordaram as consequências do enfraquecimento do multilateralismo para os mercados e para os mecanismos internacionais de cooperação, controle e tributação. A dificuldade de construir consensos entre países pode comprometer instrumentos importantes para a previsibilidade das relações econômicas, com reflexos sobre investimentos e operações empresariais.
As incertezas quanto à extensão dessas mudanças e aos caminhos que os países poderão adotar nos próximos anos também afetam o trabalho jurídico. Para os escritórios que acompanham operações internacionais, torna-se mais difícil avaliar os riscos envolvidos e antecipar as consequências de decisões políticas, inclusive aquelas tomadas fora dos mercados em que seus clientes atuam.
Nos países que integram a RLI, essas questões encontram realidades econômicas e regulatórias distintas, embora muitas das preocupações sejam compartilhadas. Os efeitos das transformações tecnológicas e da conjuntura internacional ultrapassam as fronteiras nacionais, mas não se manifestam da mesma maneira em todas as jurisdições. A troca de experiências entre os integrantes da Rede permite conhecer diferentes abordagens e compreender melhor como essas mudanças afetam empresas com operações e interesses em vários mercados.
Além das conferências e dos debates técnicos, nossa participação na IBA proporcionou a oportunidade de aprofundar vínculos com firmas com as quais já mantínhamos contato e ampliar o relacionamento com profissionais de outros países. As conversas realizadas durante o evento contribuíram para aproximar escritórios e dar continuidade a relações profissionais construídas ao longo dos anos.
Na advocacia internacional, conhecer antes e ter um histórico de relacionamento reiterado com os profissionais com quem se trabalha, suas práticas e as particularidades de cada jurisdição facilita a condução de assuntos que envolvem diferentes países. Essa proximidade também favorece a troca de conhecimento entre os integrantes da RLI, sobretudo diante de questões para as quais ainda não existem respostas definitivas.
Os debates realizados em Copenhague mostraram que muitos dos desafios enfrentados pelos escritórios são compartilhados, mesmo quando as soluções possíveis variam de um país para outro. Poder discutir essas questões com profissionais de diferentes mercados, ao mesmo tempo em que ampliamos e aprofundamos nossas relações, foi um dos principais resultados de nossa participação na IBA.
*Luís Gustavo Haddad e Mauricio de Carvalho Silveira Bueno são socios do HRSA Sociedade de Advogados.



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